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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O Artefato - trecho inicial


“Alguém aproximou um lampião. Todos ficaram boquiabertos, o objeto era sem dúvida fabricado pelo homem, mas a milhões de anos. Gilberto, um dos arqueólogos, sugeriu que o objeto poderia ter sido plantado no sítio arqueológico. A doutora Marta Pirtinine, geóloga, discordou. Segundo ela, o local estava inacessível até que nós chegássemos lá. Foi preciso o uso de explosivo, o que não é muito convencional, para abrir a passagem. Seja lá o que causou o desmoronamento da passagem ocorreu a milhões de anos e a água das cheias do rio se encarregaram de expor aquela entrada ainda semi-obstruída. Neste momento Gilberto se silenciou.”
Com este depoimento o doutor Adillamare tenta se esquivar dos crimes cometidos, e atribuídos a ele. O tribunal está perplexo, crê que o professor está criando uma grande mentira para acobertar o que fez.
Corria o ano de 1976. Adillamare é o arqueólogo responsável pelos estudos no interior do Brasil. Segundo algumas crenças, o brasil já fora habitado por civilizações humanas de altíssimo conhecimento tecnológico. No intuito de comprovar esta hipótese o arqueólogo se deslocou para a Chapada dos Veadeiros.
Adillamare sempre foi determinado e detalhista. Nunca desistia. Sua infância se passou entre livros e caminhadas pelos campos. Gostava de passear sozinho e descobrir coisas escondidas. Mas o que definiu seu futuro profissional foi a descoberta de uma peça sacra, desaparecida no tempo do império. O objeto estava escondido em uma pequena gruta próxima a um riacho. O professor, na época um menino, desconfiou de uma construção antiga oculta no mato. O local explorado era um sítio de um comerciante. O garoto não perdeu tempo em informar o padre da igreja local acerca da descoberta. O comerciante foi detectado e a peça recolhida ao museu. O turismo aumentou, bem como a renda da cidade. O garoto recebeu uma bolsa de estudo e pode se formar com honras em arqueologia.
Para a expedição a Chapada dos Veadeiros o professor contou com a ajuda de figuras importantes no cenário aqueológico.
Tudo corria bem até que algo inesperado aconteceu. Pelo depoimento que teve de repetir uma centena de vezes o mundo passou a conhecer o professor. Dillamare se tornou uma lenda entre os criminosos do mundo inteiro. Nas penitenciária todos os ladrões começaram a tatuarem em seus ombros um esqueleto cujo crânio tinha as feições do arqueólogo Professor Doutor Dillamare. Por que isso? É só acompanhar o depoimento do início...
“Meritíssimo Senhor Juiz, estive todo o tempo em expedição na Chapada dos Veadeiros. Como pode comprovar o povo da cidadezinha que nos acolheu. Portanto, não tive parte em nenhum dos furtos atribuídos a mim. Mas posso dizer quem os fez. Antes, porém, devo narrar os fatos ocorridos junho deste ano.”
No tribunal estava presente pessoas de várias partes do mundo. Muitos deles banqueiros, empresários, museólogos e outras personalidades ricas e expressivas.
“Quando empreendi a busca por civilizações perdidas no interior do país, não procurava apenas civilizações indígenas. Antes nossa tarefa era encontrar civilizações como a dos Maias, Astecas e Incas. Partimos do princípio de que se em outras partes da América existiram povos de conhecimento arquitetônico avançado, por que que não aqui, no Brasil?”

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A íris


O carro estava parado sobre um gramado verde. Terceira vez naquela semana que empacava sem motivo aparente.
A linda jovem o deixou. A roda traseira esquerda afundada na grama.
Um rapaz de boa aparência a buscava com os olhos, da sacada de uma casa.
A jovem o notou. Povoou-lhe os pensamentos, dela, uma idéia perdida que a tanto procurava.
Portava o jovem um sério observar. Respeitoso e sincero.
Entreolharam-se. Um Mistério foi tomando os minutos da troca de olhar. E as almas foram se acomodando naquele gostoso do momento. As chaves estavam quietas na mão da motorista. Um vento agitava a roupa do observador na sacada. Os dois se perguntavam, sem querer resposta, acerca do que o outro estaria pensando. Não queriam se largar daquele olhar.
Aquele jogo foi sendo dominado pelo Mistério, que melhorava até o aspecto físico do dois. A moça não notava que o rapaz não tinha Sempre, e o rapaz não notava que a moça estava coberta de Algum Dia.
O Mistério é sábio, torna as coisas mais agradáveis.
O estranho até desceu da sacada e propôs-se a ajudá-la. Abriu o capô do carro. Logo notou que o motor estava sem uma peça. Quis a jovem saber que peça era. Enigma, foi a resposta. A garota nunca ouvira falar no tal mecanismo. “Para que serviria?” — se perguntava — “Não importa”. O que importava era o carro andando.
Dispôs-se o rapaz a acompanhá-la na busca do Enigma.
Na Autopeça o vendedor estranhou, olhou o rapaz que a acompanhava e se riu ironicamente...
A moça ficou intrigada e lançou um olhar ao rapaz que a acompanhava.
Ele se volta para o vendedor e diz: então, tem?
O vendedor para a moça: moça, não me leve a mal, mas esta peça... olha novamente para o rapaz, esta peça não se desgasta, nunca se acaba. O carro pode se acabar, ir para o ferro velho, mas essa peça nunca se acabará. Como você me diz... sumiu. Sem mais nem menos?
A moça rebateu à pergunta dizendo: é um Enigma, só isso. Agora traz que estou precisando.
A dita peça, moça, não se vende. Caso, e tão somente caso, seja necessário repará-la, retificá-la, é preciso derramar a Alma.
Moça e rapaz levaram para bem junto do carro a Alma, cada qual sua respectiva.
Derramada que foi a Alma da moça, mostrou-se insuficiente, precisou também o rapaz usar de sua, na medida de suficiente.
O carro voltou a funcionar, era mesmo o Enigma que estava faltando.
Caiu um mistério entre o estranho e a motorista. Ela o recolheu para si, observando a reação do rapaz. Os dois ficaram sem palavras. Se queriam e não se podiam.
Subia como névoa um esquisito no ar. Do tipo que silencia as atitudes e desestimula o tomar coragem.
No retrovisor, o estranho-prestativo diminuía no passado da distância que o carro percorria rumo à casa da garota. Isso era o que se via pelo espelho. Assim, também pelo retrovisor da alma, as pessoas que hoje nos ajudam vão diminuindo na memória, até sumirem. Era o máximo que um poderia ser do outro: lembrança-agradecida-ao-longe.
O Mistério não pode dar vida, mas pode mudá-la, para que quando os homens cheguem à razão de suas existências, sintam a inexa desconfiança de ainda terem algo oculto a seus sentidos.

Moça e Rapaz se queriam. Não tinham ousadia para satisfazer esta precisão um do outro. Não a tinha na pratica, mas quantas vezes não fantasiaram encontros em suas mentes. Encontros que acabavam num “deixa pra lá”.
Nem a motorista poderia se lembrar: que peça quebrara em seu carro. Mesmo assim, não esqueceu que alguém a ajudou. Quem? Alguém que podia tomar posse do seu coração dela. Coisa que só não aconteceu porque seria o fim do Mistério. O encantamento se desfaria em momentos de convívio cotidiano. Encontro que miserifica as pessoas. Quem sabe? Melhor era conformarem-se com o não tido.
Restou assim uma vontade de se ter entre rapaz e moça. A vontade era prisioneira de uma imensidão de esquecimento que dá esperanças de encontrar alguém. Alguém que na verdade já havia sido encontrado, no passado. A precisão um do outro não é satisfeita no eterno do tempo.
O episódio perseguiu a moça pelo resto da vida. Quem era? O que sentia por ela? O que aconteceria se ficassem juntos? ...o Mistério era tudo o que poderiam ter.