quinta-feira, 31 de julho de 2008

O segredo do feitiço


Num belo dia, uma bruxa desastrada subiu a um muro muito alto. Ela não sabia que em cima do muro havia uma formiga ilusionista que se transformava em dragão. Ao ver a formiguinha disse:
— Nossa! Uma formiga, era o que eu precisava para minha receita.
Mas uma coisa aconteceu, a formiga transformou-se em um dragão e falou:
— Você não vai sair daqui viva!
— Sou uma bruxa e faço o que você quiser, tudinho é só pedir.
— Eu quero ser ator de novela.
— Ora, isto é fácil, só precisa me deixar passar. Do lado de lá existe uma princesa que pensa que é uma vaca. Foi um feitiço feito por alguém mau. Se eu desfizer o feitiço o rei será grato e me concederá um desejo...
— Não posso fazer isto, sou do bem, e o rei que não sabe ler é meu amigo e pai da princesa.
— Mas eu sei como tirar o feitiço da princesa.
A bruxa sentiu que seria seu fim. Precisava convencer o dragão. Mas, desastrada como era, acabaria dizendo algo errado.
O dragão percebendo o desconcerto da feiticeira disse:
— Fale como posso desfazer o feitiço ou te prendo num lugar onde nenhuma magia funciona.
— Tudo bem! Vou falar. Mas se afaste que seu bafo de fumaça está impregnando minha roupa.
—FAAAAALEE LOGO!
— Você precisa pedir ao rei que leia o feitiço que esta escrito neste papel.
Estendeu a mão e entregou um papel encardido e com aparência de antigo.
O dragão ficou indignado e se voltou para a bruxa:
— O rei não sabe ler será impossível ler o que está escrito no papel. Vou te prender!
A bruxa percebeu o vacilo que deu. Ela mesma cuidara para que o rei nunca aprendesse a ler, pois sabia que seus feitiços sempre eram desfeitos se a parte interessada os lesse. Mas não poderia se entregar sem luta, e disse:
— Espere! Como pode saber que ele não irá conseguir? Você ainda não tentou?
E o dragão chamou o rei e lhe disse:
— Se Vossa Majestade ler o que está escrito neste pedaço de papel sua filha voltará a ser humana.
E, para a surpresa de todos, o rei leu. Imediatamente a princesa virou gente.
O dragão, intrigado, perguntou:
— Como pode ser isto?
— A princesa, minha filha, foi que me ensinou a ler, para que eu lesse contos de fada para ela enquanto pastava.
A dragão consegui uma vaga em uma novela do reino e a bruxa deixou o ramo de bruxarias e resolveu ser jardineira real. E todos viveram felizes para sempre... Será?

Vanessa

Com a venda nos olhos




“A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado..”
Pv. 11:25.


I
Da calçada alguém olhou a cena estático. Um homem de seus quarenta com um balde à mão retirando afoito água de um barco.
Tudo acontecia ali, ante os olhos curiosos de muitos transeuntes, que paravam em frente ao museu.
O barco estava dentro de uma piscina no centro daquele modesto Museu da história da Humanidade.
Havia, no fundo do barco, um orifício com tampa. Tirando a tampa, a água começava a entrar, quando já tinha água suficiente para encher dois ou três baldes o homem tampava o orifício, e punha-se a esvaziar o barco.
Assim ficou o dia todo.
Os funcionários do museu nada fizeram para impedir. A ninguém fazia mal. Talvez, descarregasse tensões da vida diária.
As portas se abriam e fechavam. Muitas pessoas adentravam os salões daquele edifício no centro da cidade.
O homem parecia cansado, mas não se dava por satisfeito.
Tampa. Água, tampa, balde, tampa.
Roupas molhadas, expressão de cansaço.
O barco se movendo sobre a piscina.
Todos se perguntando: O que faz este homem? Qual o seu objetivo? O que significa isso? Estará louco?
A tarde chegou e em seguida a noite. O homem foi expulso do Museu.
Luta de um dia inteiro. Em seus olhos um mistério. Em que pensava?
Balde à mão, foi descendo a rua principal. Chegou a uma casa pequena na periferia da cidade.
Um mato ralo e rasteiro cobria a frente da casa, que tinha um aspecto colonial. O portão rangeu ao ser aberto. Som de pássaros, som de veículos, início da noite.
Abriu a porta bem devagar. Estava exausto e com fome. Nada comeu. Deitou-se, dormiu.

II
Sonhou que um ser desconhecido e majestoso, dizia-lhe: “proponho-te um enigma: o que em vastidão cobre a terra, tem poder de vida e morte, mas nem por isso é um ser vivo, racional?” Veio-lhe ao pensamento “Será que estou vivo? O que vejo não parece racional”. E viu cenas de sua vida. E momentos de descontração. E alegria. E emoções intensa. E Uma voz lhe perguntou: “você nega que sentiu tudo isso? Então, por que em momentos de calamidade a vida te parece ruim? Você se ria nos bons momentos sem se preocupar com o mal que te poderia sobrevir.”
O ser traçava comentários acerca do imediatismo do homem e como só se importava com o agora. “O futuro não pode mudar as atitudes do presente. Uma pessoa se arrepende do passado, mas no agora não pensa que conseqüências terá suas ações. Não que não tenha consciência disso, antes porque busca o caminho mais fácil...”
E, ainda no sonho, um mar se abriu. E pessoas morriam afogadas. Ele nada podia fazer, e se frustou.
A seguir, viu-se em um deserto, sentiu sede.
Se surpreendeu ao ver água cristalina jorrar de uma pedra. O vislumbre se apossou de sua alma. Quando foi bebê-la se lembrou do enigma.
Rápido outra cena se sucedeu. Estava em um corredor e muitas portas se abriam.
Contemplava as belezas de tudo o que se encontrava do outro lado. Achava não estar pronto para entrar, e a porta se fechava. Daí a pouco outra porta se abria. O mesmo se repetia. Até que uma porta se abriu mostrando tortura e muita miséria. Ele se pôs a entrar. “Eu os vou ajuda a saírem dessa miséria.”
Obstruindo a porta não os deixava acessar a galeria, e isso os impedia de poderem escolher...
Não os pôde ajudar, o que precisavam estava naquele corredor.

III
A noite estava escura.
O vento fazia barulho ao passar pelos galhos secos de uma árvore próxima a janela. Convidava todos os seres vivos a se agasalharem e se refugiarem em suas casas.
Noite com promessa de frio.
Folhas caíam.
O silêncio só cedia ao som de insetos... corujas... cães.
O balde descansava, ainda molhado, abaixo de um quadro. Um caminho que morria entre as montanhas era a cena dele.
Sobre uma mesa um copo d’água, cheio até a metade.

Boneca de Barro


Seu tempo gastava em três coisas. A olaria, que recebera de um primo, já falecido. Os livros, que sempre comprava e em cuja companhia amava estar. E por último a marcenaria, esta seu ganha-pão. Todos o conheciam por seu trabalho em madeira, artesanal e caro. A fortuna lhe sorriu na vida, mas não lhe arrebatou o coração. Uma coisa, contudo, o incomodava, estava só. Só de uma viuvez opressiva. Dez longos anos de noites indefinidas e dias entorpecidos na labuta.
Uma imagem fixou-se em sua mente e o perseguia, uma formosa moça que vira na praça central. Guardou em seu coração: os gesto, o perfume, o olhar, as veste; e os movimentos graciosos da cabeça, dos braços, do andar. Tomado de reflexões esquisitas, se via como o possuidor de toda aquela beleza. Se imaginava tocando-a, beijando-a e assumindo o papel de homem.
"O pensamento gera palavras, as palavras geram ações e as ações denunciam as intenções". Após ler esta frase em um livro, concluiu que seria perigoso se entregar a um desejo como aquele. "É melhor fazer uma coisa... que apenas sonhar" — -refletia. Era tímido, buscava coragem para abordá-la. Mas a coragem não veio. Veio o sentimento de querer e não ter. Sentimento de exclusão, solidão, precisão e impotência.
Para qualquer outro homem, todas estas conjecturas são banais e absurda, para ele não. E a razão estava em que a ordem e a ética se uniam para brigar com a conduta, que contraditória, se não cruel, imbuída estava de certa perversidade.
Será que amava a desconhecida? Quanto mais pensava nisto, mais forte era o sentimento. Necessitava da idéia que fazia da moça. Era para a sociedade. Imaginava-se sendo observado ao lado dela. Com todos vendo o quanto ela era bonita. Em seus pensamentos ela era um troféu, que ele precisava ter. Sua mente cismou com tal pensamento, como pode? um homem, como ele, ser feliz enlaçado a dotes de estranha pessoa?
Sem misericórdia da circunstância, frustou-se no recôndito de sua casa, passado, distraído, a escrever. Compôs uma história. Nela a moça era tomada sem reservas, era possuída por direito de criação. Pesou-lhe a ética, e a caneta, já trêmula, parou. Aquilo não lhe parecia certo — a balança da reflexão. Com um embrulho descuidado cestou o conto. Em nome dos grandes momentos, que teve na vida afetiva, e para não mais martirizar o coração se pôs a ocupar as mãos. Tenho o que preciso, o que me falta? quem sabe, o tempo e as circunstâncias trarão. Pena desejarmos o que não podemos ou não devemos ter! — conjecturou.
Mas o medo de perder a oportunidade o angustiava. Uma força, sem senhor, inflou-lhe o peito. Vinha trazendo a um braço a curiosidade, a outro a necessidade, que, ao colo, sustentava, assentado, o desejo. Do barro surge uma miniatura de mulher, em tudo formosa, tal qual a cobiçada da tarde que lhe consumiu algumas horas. Era já noite, a fome resmungava a um canto da sala, segurando ao chão um cãozinho de olhos esbugalhados e corpo de finos contornos.
Apreciou, quis, rejeitou, refletiu, ponderou, chão com ela; e eram só cacos as horas que se passaram. Aquele procedimento lhe era estranho, tão estranho quanto o sentimento, que se recusava a ceder a seu domínio.
No dia seguinte, recolheu da lixeira os escritos proibidos. Os reavaliou. Depois de horas gastas em reformulá-los, um arrependimento. Tempo perdido? A tarefa árdua pareceu-lhe sem sentido, contudo ficara viciado e sempre queria mais. Rasgava, colava, queimava, refazia; tinha pesar, gosto, felicidade, tristeza, dúvida, desejo. Tinha loucura! Em sua mente buscava imaginar quem não se deixava afetar por tal sentimento, em sua opinião, um incoerente sentimento.
Ora lembrava-se da jovem com desejo, chegando mesmo a moldá-la com traços mais lindos, mais perfeitos, ora imaginava-a como seria ao envelhecer, ou se alguma doença a atingisse. Aquilo o torturava. Se ela era uma imagem bonita, causava-lhe desespero — por que não a abordei?—, se decrépita, aborrecimento — como posso ser feliz se não aceito a ação da natureza e do tempo na pessoa que amo? Lembrava-se de sua ex-esposa, vítima dessa mesma natureza.
Mergulhou no infindo mundo das reflexões. Foi engolido pelas palavras, até o ponto de elas não mais fazerem sentido. A vida lhe era pesada. Naquele momento os valores estavam sendo repensados. Tudo o que ele viveu cobrava espaço nos pensamentos. Precisava das fantasias para conter o ímpeto profundo da paixão, mas elas faziam com que aquilo crescesse, e trouxesse à tona o teor da vida. É como se ele tivesse caído em uma cisterna. Não se machucou na queda, mas não encontrava ninguém que pudesse tirá-lo de lá. Tudo era uma questão de tempo, só não sabia quanto e se ele agüentaria a espera.